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Não será televisionado

Inquérito citado por Moro como “prova” de interferência de Bolsonaro é inconstitucional

Trata-se do infame inquérito das “fake news” que censurou O Antagonista e puniu críticas ao STF – o próprio site o chamou de “inconstitucional”

Sérgio Moro vazou ao Jornal Nacional como “prova” de uma suposta interferência do presidente na Polícia Federal uma conversa de WhatsApp, na qual Bolsonaro passa a Moro um link do site doriano “O Antagonista”. Na manchete, que aparece no print da conversa, lia-se: “PF na cola de 10 a 12 deputados bolsonaristas”.
Moro, ao vazar a mensagem que foi lida no Jornal Nacional, dá a entender que Bolsonaro gostaria de trocar o diretor-geral da Polícia Federal porque a a PF estaria descobrindo crimes de deputados “bolsonaristas” – assim, Bolsonaro estaria impedindo uma investigação para proteger “bolsonaristas”, que é como a mídia chama qualquer um que não concorde com sua narrativa. Sérgio Moro repetiu nas redes sociais que “preservar a PF de interferência política é uma questão institucional”.


Entretanto, trata-se apenas de uma impressão criada por uma manchete. O próprio site doriano O Antagonista escreve, já no primeiro parágrafo: Conduzido por Alexandre de Moraes, o inquérito inconstitucional das Fake News, que censurou nosso site, vai acabar alimentando o inquérito sobre a carreata inconstitucional bolsonarista, que também é conduzido por Alexandre de Moraes.”
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Este conteúdo da reportagem, que já começa no primeiro parágrafo, “acidentalmente” não foi citado no Jornal Nacional, que preferiu a impressão causada apenas pela manchete – nenhuma menção à ilegalidade do Inquérito do STF, que censurou o próprio “O Antagonista”.
Ou seja, a conversa vazada que Moro vazou para a mídia (por que não para os órgãos competentes?) não prova, até o momento, uma malversação de Bolsonaro, nem algum autoritarismo para se proteger ou proteger os seus. Porém, para perceber isto é necessário ler além da manchete, mesmo de um site doriano como O Antagonista.
Moro, até o momento, mais manipulou a opinião pública, sabendo que 99% das pessoas só lêem a manchete, do que apresentou uma prova incontestável de Bolsonaro estar particularizando o poder em seu próprio benefício ou de “bolsonaristas”.
Pelo que se lê além do que o Jornal Nacional cita, Bolsonaro usou como motivo para a troca na PF até algo que protege um desafeto – e um site poderoso na militância pró-Doria como O Antagonista.

Censura, buscas e apreensões

O inquérito que o próprio Antagonista considera “inconstitucional” censurou o site e a revista Crusoé, exigindo multa diária de R$ 100 mil, além de ouvir os responsáveis pelo site em 72 horas. Tudo se devia à reportagem de nome “O amigo do amigo de meu pai”, na qual se descobria que o curioso epíteto usado em um e-mail de Marcelo Odebrecht referia-se ao ministro do STF Dias Toffoli.
A então Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, negou afirmação da Crusoé de que recebera alguma informação confirmando que o citado “amigo do amigo de meu pai” fosse Dias Toffoli. A TV Globo à época confirmou que o documento foi anexado aos autos da Lava Jato, porém o documento não chegou às mãos de Raquel Dodge. Por conta disto, a Crusoé foi censurada pelo STF.
O inquérito das Fake News, além de dar (mais) poder ao STF e diminuir ainda mais a combalida liberdade de expressão e de imprensa no Brasil, foi usado para o Supremo perseguir quem tivesse “opiniões negativas sobre o STF” ou postasse “ofensas à Corte”, como noticiou Camila Bomfim, na própria TV Globo. O fato não foi citado nem por Sérgio Moro, ao vazar mensagem de Bolsonaro, nem pelo Jornal Nacional, dando a entender que Bolsonaro estava apenas protegendo “bolsonaristas”.
A tática de apelar para quem lê apenas a manchete e tira conclusões apressadas sempre funciona. Moro, até o momento, não apresentou provas contundentes de alguma ingerência ou crime cometido por Bolsonaro – entretanto, o uso de uma mensagem como esta vazada para o Jornal Nacional deixa entrever um forte indício de como será sua narrativa doravante.
Também seria interessante, para a opinião pública, saber o que Sérgio Moro pensa sobre o inquérito chamado de “inconstitucional”. Quem sabe em uma argüição com Augusto Aras, por exemplo.
1984 O tal inquérito que o Antagonista chama de “inconstitucional” e que a TV Globo afirma que “censura sites” ensejou ainda mandados de busca e apreensão, confiscando celulares, tablets e computadores de quem tivesse exposto “opiniões negativas” ao STF, novamente de acordo com a Globo. Uma das mensagens censuradas falava em trocar o STF “a fórceps”, iniciando o processo de criminalização de metáforas e alegorias no Brasil.
Talvez Bolsonaro tivesse entendido isto como uma razão para uma troca na direção da Polícia Federal. A leitura de que se tratou de mera e mesquinha proteção a “bolsonaristas” (pecha imputada pela mídia a todos aqueles que a mídia não quer que sejam lidos e ouvidos) fica seriamente prejudicada – não para a massa, que continuará acreditando na Rede Globo, mas para quem vai além de uma manchete, busca links, faz pesquisas etc.

Narrativa pronta

Sérgio Moro pode mudar os ânimos e o sentimento da nação – como já mudou de quem lê apenas manchetes – mas precisa mostrar uma prova consistente de alguma suposta ingerência de Bolsonaro ou de alguma razão pessoal do presidente em indicar a direção da Polícia Federal, como é seu direito pela Constituição.
Sabemos que, por ora, por décadas ainda se dirá que Moro provou que Bolsonaro impediu investigações na Polícia Federal. Até agora, entretanto, raros que leram além de manchetes sabem dos fatos. Fica sempre o aviso para só tirar conclusões com mais leituras do que o Jornal Nacional – além de uma recomendação para que este texto seja divulgado.
Com o que jogou para a maior mídia do Brasil até agora, Sérgio Moro apenas direcionou sentimentos difusos de quem lê apenas manchetes. O mesmo se deu com a mensagem de Carla Zambelli, que apenas comenta que Moro deveria ir para o STF em agosto, mas Moro divulgou supondo um condicional, como se Carla Zambelli, que estava articulando, condicionasse um nome para a PF em troca de uma indicação de Moro ao STF, o que não aparece em suas mensagens.
O vazamento, além de imoral – dando a entender algum crime de Carla Zambelli, e dando ensejo para o vazamento de mensagens a la The Intercept, de quem Moro foi a maior vítima até hoje (ouça nosso podcast) – ainda repete a tática de entregar uma informação já interpretada por Moro, mas que, na brutalidade opaca dos fatos, não contém crime algum. Pelo contrário, diminui o peso das acusações de Moro e também seu papel simbólico para o país.
Note-se ademais que, por uma misteriosa e estranha razão, Moro tirou prints da tela assim que recebeu as mensagens de Bolsonaro com o link para a matéria d’O Antagonista. Ou seja, Moro já presumia que as mensagens da tela poderiam “pegar mal” fora de contexto e usou-as para criar uma narrativa.


Muitos acreditaram nas impressões criadas por Moro, mas, até o presente momento, a ação de Sérgio Moro funciona mais como peça publicitária para uma possível campanha eleitoral do que para incriminar Bolsonaro.


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record). No Twitter: @flaviomorgen

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